Quem inventou?

É uma importante tecnologia, essencial para a vida moderna. Muitas pessoas, de diversas nacionalidades, procuraram torná-la viável, porque representa um antigo sonho da humanidade. Entre estas contribuições, a de um brasileiro é por vezes desprezada por europeus a norte-americanos.

Eu não me refiro ao avião, de cujo desenvolvimento e funcionamento eu entendo pouco. Gostaria de apresentar aqui alguns aspectos do desenvolvimento do rádio. Embora eu não seja um especialista, é algo um pouco mais próximo dez minha área de atuação. Gostaria de, usando o exemplo do rádio, mostrar que perguntas como “quem inventou?” de certa forma carecem de sentido, quando se referem a uma tecnologia complexa, por mais que queiramos organizar este tipo de informação em uma tabela, e distribuir medalhas para nações e culturas. Podemos, no máximo, escolher um marco particularmente importante no histórico de evolução destes inventos, e, burocraticamente, chamar este marco de “invenção”.

O funcionamento do rádio pressupõe um conjunto de diferentes soluções de tecnologia: a representação de áudio na forma de corrente elétrica, a propagação eficiente de sinais elétricos sem fio, a recepção destes sinais e sua amplificação. Nenhum dos personagens cujo trabalho acompanharemos pode reivindicar a autoria de todas estas soluções.

A ideia de que uma corrente elétrica (ou sua ausência) pode representar informação acaba resultando na primeira aplicação indiscutivelmente relevante da eletricidade: os telégrafos de Cooke e Wheatstone, na Inglaterra, e Morse, nos EUA. O serviço de telégrafo da estação Euston, em Londres, foi inaugurado em 1837, e em meras três décadas já era possível enviar telegramas para todos os continentes, exceto a Antártida.

Neste tipo de tecnologia, um pulso elétrico é manualmente produzido pelo emitente, que abre e fecha contatos elétricos no transmissor. Os pulsos propagam-se por fio até o destino. Operadores são treinados para transcrever texto em códigos de pulsos elétricos (sendo o mais eficiente deles o inventado por Morse, ou, segundo alguns, por seu assistente Vail) e para interpretar os pulsos recebidos como letras. Cabos cruzavam continentes eoceanos, fazendo surgir pela primeira vez a ideia de comunicação global.

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Comutador telegráfico de Morse. Smithsonian.

A representação analógica de áudio em corrente elétrica é obtida com sucesso comercial com os microfones de carbono, que permitiriam em seguida o desenvolvimento do telefone. Thomas Edison depositou patente para esta tecnologia em 1877. Grãos de carbono são colocado\s entre placas metálicas, e uma delas vibra com a pressão de ar. A corrente entre as placas resulta proporcional à variação de pressão na placa-diafragma, copiando assim a forma de onda de áudio para a corrente elétrica. Leitores(as) menos jovens vão se lembrar do formato deste microfone em telefones antigos.

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Microfone de carbono da Western Electric, que viabilizou os primeiros telefones. Wikipedia.

Embora haja mais de um fenômeno que permite a um circuito elétrico influenciar outro à distância sem conexão por fio, as ondas eletromagnéticas são, sem dúvida, a forma mais viável. Estas aparecem, no campo teórico, nas equações do eletromagnetismo de Maxwell, desenvolvidas entre os anos 50 e 70 do século XIX. Hertz as demonstraria experimentalmente na década seguinte.

Mas Maxwell e Hertz não parecem ter percebido, ou se interessado, pela possibilidade de comunicação à distância. Este último chegou a declarar, explicitamente, que não via aplicação prática para suas “ondas sem fio”.

Há uma série de trabalhos que tornam as ondas eletromagnéticas as portadoras ideais para propagar informação sem fio. Deve-se citar em destaque o trabalho de Tesla, que parece ter sido um dos primeiros a perceber que tal tipo de tecnologia levaria a uma nova era de comunicação global. Fez, por exemplo, importantes avanços para obter geradores mais eficientes, trabalhando com frequências mais altas.  Suas bobinas eram também um espetáculo visual, e ajudaram a consolidar sua imagem como mago da eletricidade. Em 1943, com o rádio já comercialmente estabelecido, a Suprema Corte americana decidiria que deviam ser reconhecidas duas patentes de Tesla sobre a sintonia de circuitos de comunicação, essenciais para o rádio. O processo não teve efeito financeiro, mas ajudaria a aumentar a polêmica.

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Fotomontagem de 1900 do Laboratório de Tesla (a imagem do homem na cadeira é de uma fotografia à parte, segundo Nell Greenfieldblock). Bettmann & Corbis.

Voltando à ordem cronológica: Marconi combinou os avanços de diversos inventores em um sistema comercialmente viável para comunicação telegráfica sem fio. Em 1897, já era criada sua companhia, e o telégrafo sem fio se torna equipamento comum em transatlânticos no começo do século XX. Funcionários de Marconi estavam a bordo do Titanic e utilizaram o telégrafo sem fio para obter ajuda.

 

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Oficial Jack Phillips na sala de rádio-telégrafo do Titanic. http://www.pandosnco.co.uk/radio_officers.html

A viabilidade da tecnologia de rádio para a transmissão de voz e música teria que aguardar o desenvolvimento dos primeiros dispositivos eletrônicos, as válvulas de De Forest e Fleming, desenvolvidas nas primeiras decadas do século XX, e que eram capazes de promover a amplificação dos fracos sinais eletromagnéticos recebidos. No entanto, antes do desenvolvimento desta tecnologia, existe o notável feito do padre brasileiro Roberto Landell de Moura.

Não parece haver duvida de que a cidade de São Paulo, em 1900, é palco da primeira transmissão sem fio de voz, em demonstração pública do Padre Moura. Este fato é estranhamente pouco comentado no Brasil. Aparentemente, nosso descaso pela cultura científica é mais forte que nossas tendências ufanistas.

Sem apoio brasileiro (o que provavelmente não surpreende), mas com grande esforço proprio e de amigos, Landell de Moura consegue importantes patentes nos EUA para o “telefone sem fio” em 1904.

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Esquemático apresentado para a patente do “Telefone sem Fio” nos EUA por Pr. Landell de Moura. Wikipedia.

Não deveria Landell de Moura ser considerado então o inventor do rádio? Afinal, o que Marconi demonstra comercialmente desde a última década do século XIX é o telégrafo sem fio. Seu sistema não é adequado para a transmissão de voz e música, algo que é imediatamente associado ao que chamamos “rádio”.

A primazia de Landell de Moura é defendida por muitos, mas há outros aspectos e trabalhos a considerar. O canadense naturalizado americano Fessenden também demonstra transmissão de voz em 1900, de maneira independente, e aperfeiçoa seu sistema para conseguir a primeira transmissão de música em 1906.

Mas é novamente a companhia de Marconi, chegando um pouco atrasada ao problema da transmissão contínua, adequada para áudio, que vai a partir de 1915 utilizar a nova tecnologia eletrônica de amplificação e desenvolver as primeiras estações transmissoras de rádio em operação comercial.

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O receptor de rádio de Marconi. Elmer Bucher.

Em meio a tantos trabalhos, tantos esforços e tantas alegações de originalidade, quem deve receber o título de inventor do Rádio? Pelo conjunto da obra, pelos muitos sucessos efetivos de utilização comercial da tecnologia, a maioria acaba apontando para Marconi. O pioneirismo de Tesla, Moura, Fessenden e outros deve, porém, ser lembrado.

Mais do que reunir elementos para tentar responder à nossa pergunta, a pequena história relatada aqui, incompleta e simplificada — ignorei, por exemplo, toda a questão de como modular as ondas eletromagnéticas para que transmitam informação — ilustra alguns aspectos importantes e frequentemente ignorados da Tecnologia. O surgimento de uma nova tecnologia tem pouco em comum com a demonstração de um teorema, a proposta de um novo modelo teórico, a realização de um experimento revelador. Ele ocorre após um longo trabalho empírico de aplicação de diferentes técnicas. É um processo que tipicamente valoriza aspectos comerciais das soluções consideradas, algo que a academia tem dificuldade em fazer sozinha. E este processo não costuma ser fruto da inspiração individual de um gênio, mas da combinação dos esforços de equipes. São ideias a considerar hoje, quando se fala que o Brasil precisa encontrar caminhos para que tecnologia e inovação sustentem o desenvolvimento econômico e social.


Esta postagem é uma versão ligeiramente modificada (e com acréscimo de imagens) de um texto de minha autoria publicada em um blog ora desativado.

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Conheça Hans, o incrível cavalo matemático

Durante a primeira década do século XX, alguns cidadãos da Alemanha foram brindados com um curioso espetáculo de rua: a demonstração das habilidades matemáticas e linguísticas do cavalo Hans.
Em uma dessas demonstrações, por exemplo, o treinador e dono de Hans, Orlov Trotter, perguntava em voz alta: “Hans, se o dia 5 do mês caiu em uma terça-feira, qual o dia da sexta-feira seguinte?” Hans então começava a bater uma das patas no chão e parava após 8 batidas, para total admiração do público e o sorriso orgulhoso do dono.
As perguntas para Hans podiam também ser feitas por escrito, e envolver operações aritméticas de certa complexidade.
O assunto despertou óbvio interesse, e em certo momento criou-se uma comissão de investigação, formada por acadêmicos de diversas áreas e profissionais do ramo do circo. Uma série de experimentos conduzidos pelo psicólogo Oskar Pfungst começou a lançar alguma luz sobre o fenômeno. Foi observado que:
  • Hans só acertava perguntas cuja resposta fosse conhecida pelos espectadores à sua volta.
  • Hans precisava ter visão desimpedida, incluindo sua visão periférica, para responder corretamente às questões.
A comissão concluiu que Hans batia uma pata no chão até observar, por sutis sinais de alívio e aprovação de seu treinador ou do público, que havia chegado à contagem correta.
Essa história curiosa ilustra, de maneira notável, alguns aspectos do método científico e do comportamento humano (e animal) em relação ao conhecimento.
Em primeiro lugar, vemos que o ceticismo da investigação científica é uma necessidade. Não é um capricho, uma demonstração de mau-humor, de falta de imaginação ou de arrogância. Na verdade, é uma demonstração cristalina de humildade, em um nível raramente observado em outras áreas: precisamos de ceticismo para com as teses que levantamos, porque geralmente estamos errados. Porque as aparências e nossas pré-disposições nos enganam. A ciência consegue, ao longo do tempo (e com alguns recuos), fugir das armadilhas da aparência, não em virtude de ter em seus quadros pessoas de inteligência incomum, mas porque se cerca de procedimentos, por vezes incômodos, para diminuir a chance de nos enganarmos.
Outra reflexão: apesar do eventual incômodo a que me referi, os fundamentos do método científico estão à disposição de qualquer pessoa. O método de Pfungst é, de fato, simples: variar as condições dos experimentos, para verificar quais delas constituem a essência e a causa do fenômeno estudado. Se uma modificação fez o fenômeno desaparecer, estamos nos aproximando da identificação de sua causa. Não há nada de excessivamente sofisticado ou acadêmico nisso. Esta ferramenta está à nossa disposição para estudarmos e questionarmos muitos aspectos corriqueiros e cotidianos. Ela não é uma construção dos departamentos de ciências exatas das universidades, mas uma parte integral e essencial do espírito crítico do ser humano, a ser explorada e celebrada.
Deve-se notar também que, embora Hans não estivesse de fato fazendo aquilo que seu treinador e a maior parte do público imaginavam, não havia fraude alguma! Nada nas investigações da comissão ou nos experimentos de Pfungst indica que Trotter (que, a propósito, nunca cobrou por suas demonstrações) estivesse conscientemente passando dicas para Hans, ou tivesse tomado qualquer atitude para enganar o público. Este público de então viu, com aqueles olhos que a esta altura a terra já comeu, exatamente o que eles alegavam ter visto. Mas o que foi visto não nos leva a concluir que Hans fosse um cavalo versado em matemática nem (muito mais improvável ainda, obviamente) em alemão. Quando se recebe com ceticismo a informçaão de que uma testemunha alega ter presenciado algo, não estamos questionando sua honestidade ou sua honradez, mas apenas procurando explicações alternativas.
Uma última reflexão: além de ser acusada de arrogância, a ciência é por vezes criticada por “tirar a beleza” ou “o mistério” dos fenômenos. Cá estamos, às voltas com um fenômeno instigante, que nos faz pensar que animais podem ter habilidades maiores do que se imaginara, e lá vêm esses cientistas para estragar tudo com uma explicação sem graça.
E como resposta, deve-se fazer outra pergunta: quem disse que acabou o mistério? O feito de Hans é absolutamente extraordinário. É um fenômeno de interesse para a psicologia e a engenharia ainda hoje, 100 anos depois das demonstrações de Trotter. Apenas temos que interpretar esta curiosa história de maneira correta.
Hans foi capaz de estabelecer uma relação complexa com outros agentes inteligentes, construída a partir de pistas frágeis: de uma base empírica e sem planejamento, ele identificou quais eram as expectativas das pessoas à sua volta e desenvolveu de maneira autônoma um algoritmo para alcançá-la em uma interação não-trivial. Tal habilidade ainda pertence ao mundo dos sonhos da pesquisa moderna em sistemas inteligentes. Hans derrota, sem dificuldade, o mais sofisticado robô conhecido, um século depois de seus feitos. Não conhecemos o mecanismo neuro-químico capaz de representar processamento de informação de tamanha complexidade. Quem se dispuser a investigar este fenômeno não sofrerá por falta de mistérios.
E não precisamos parar por aí. Seria estranho que esse “efeito Hans” não tivesse um equivalente, ainda mais sutil e complexo, quando falamos da relação entre seres humanos. Quando fazemos entrevistas ou pesquisas de opinião, será que nosso sujeito não retira do entrevistador (que se esforça para manter-se neutro) dicas sutis sobre a resposta esperada, e não se sente, em algum nível, compelido a satisfazê-la? Será que isto explica, por exemplo, por que posições políticas extremas frequentemente têm maior representação no processo secreto de voto do que nas pesquisas eleitorais?
Hans nos oferece mistérios instigantes e a ciência nos convida a falarmos sobre eles. Ela só nos ajuda a não perdermos tempo onde o mistério não está.
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Texto publicado anteriormente em outro blog meu, em vias de desativação. Houve mínimas correções ortográficas nesta versão.

Simples como ut-re-mi

O hino “Ut queant laxis“, em homenagem a São João Batista, é considerado a origem das notas da escala musical. Ele é do século VIII e atribuído a Paulus Diaconus. Pode-se observar que as sílabas iniciais das seis primeiras frases nos dão as célebres notas ut – re – mi – fa – sol – la.

Ut? Pois é. Virou Dó em quase todo o mundo (e Dô em São Paulo), embora os franceses insistam em Ut. Especula-se que a única sílaba iniciada com vogal no conjunto não seria a mais adequada para o solfejo (a técnica de cantar com o nome das notas como letra, um exercício musical importante).

Mas por que Do e não….Blut? A ideia é atribuída a Giovanni Doni no século XVI. Ele teria defendido a tese de que Do seria uma abreviação para Dominus (Senhor, em latim), e assim adequado para o nome da primeira nota. É uma abreviação de Doni também, mas isto é mera coincidência, segundo o proponente.

E onde está o Si? A música medieval tinha certa dificuldade com o sétimo grau (essa dificuldade é que faz a música medieval soar um tanto exótica para os ouvidos de hoje, especialmente nos finais de frase). O hino não sobe até o si. Esta sílaba seria a mistura do S e J da última frase.

Sj? O latim tinha certa dificuldade com o J. Mais especificamente, não havia J, mas I. O J do vídeo é um anacronismo. Enfim, a inglesa Sarah Glover proporia a mudança para Ti no século XIX, como sabem os fãs de A Noviça Rebelde, para que não houvesse letra inicial repetida no conjunto. A mudança só foi adotada amplamente nos países de língua inglesa.

Isto para solfejar. Para se referir às notas em uma música, os latinos usam os mesmos nomes, mas na língua inglesa usa-se um antigo sistema (também medieval) empregando  letras do alfabeto latino de A a G. A para o lá, B para o si, C para o dó e seguindo a sequência até G para o sol.

Por que não A para o dó? Há várias histórias. Eu gosto da história do modo Eólio. A sequência Dó ao Si forma o que hoje chamamos escala de Dó maior. São as teclas brancas do piano. Esta escala era chamada Modo Jônico  pelos gregos, que deu Iônico em latim (problemas com o J, lembra?).

Não era o modo mais comum. Há um trecho em A República, no qual Platão faz Sócrates acusar o modo Jônico de provocar sentimentos molengas e indolentes (?).  O modo Aeólio (que deu Eólio em latim) era bem mais comum, e continuaria comum por muito tempo. Em um teclado moderno, ele é produzido pelas notas brancas de Lá a Sol, e daí viria a associação de A com o Lá. Em tempo, este é quase o nosso “modo menor” moderno, mas é necessário (às vezes, nem sempre) alterar ligeiramente o sol (problemas com o sétimo grau, lembra?).

Os acidentes (alterações das 7 notas que correspondem às teclas pretas do piano e completam os 12 tons da música ocidental) geralmente não são pronunciados no solfejo. Para se referir aos acidentes, latinos falam em “bemol” e “sustenido”, os de língua inglesa falam em “flat” e “sharp”. Ao que tudo indica, isto é desnecessariamente simples para os alemães, que usam um outro sistema, no qual B é Si bemol (e não Si), e H é Si. Existem razões, ou especulações para o H, mas o texto já está muito longo.

De qualquer forma, B, A, C e H, por exemplo,  são notas em alemão (Si Bemol, Lá, Dó, Si). E temos indícios que o mestre João Sebastião sabia disso, porque essa combinação um tanto estranha de notas aparece em sua obra.

Esta é a Fuga final, inacabada, de “A Arte da Fuga”. O que restou escrito é uma Fuga Tripla (o que quer dizer com três temas) a quatro vozes. O terceiro tema é B A C H (a partir de 9 min 33s nesta interpretação um tanto lenta de Glenn Gould). No momento em que os três temas começam a ser reunidos, o esboço que nos foi preservado acaba. Existem tentativas de “completar” a obra, mas a experiência, profundamente chocante, de ouvi-la assim, com a súbita interrupção (Glenn Gould interrompe um pouco antes do verdadeiro final do manuscrito), é superior.

 

 

 

Aos vencedores, a liberdade.

Eu não encontrei batata no supermercado sexta-feira. Um problema menor em comparação com o que outros brasileiros enfrentaram. Há prejudicados nos hospitais, viagens canceladas nos pontos de ônibus e nos aeroportos, aulas canceladas. País e mães tiveram que manter seus anjinhos em casa, lidando com seu poder milagroso de multiplicar (por fracionamento) as peças de vidro na sala.

Ter batata no supermercado, ou alface para a merenda das escolas, ou querosene nos aeroportos depende de uma rede de ações de grande complexidade. Refletindo sobre sua dimensão, é surpreendente que ela não falhe mais frequentemente. A vida urbana é fortemente artificial, mantida por um equilíbrio de interesses que pode desaparecer em poucas horas.

O responsável pelo equilíbrio, podemos dizer sem erro, não é o governo. O governo desta semana é tão ruim quanto o da semana passada, porque é o mesmo. Se ele não pôde produzir batatas em prateleiras agora, não era ele que as trazia antes.

O que trazia batata, verduras e querosene era a ação de uma multidão agindo em interesse próprio. No caso, caminhoneiros. Eles não estão engajados em melhorar o mundo por meio de tubérculos, verduras e hidrocarbonetos. Não existe uma CaminhoesBras, nem a Agência Nacional de Logística Socialmente Referenciada. O indivíduo que transportou batatas hoje transporta produtos para um “sex shop” amanhã, se as condições lhe parecerem favoráveis para essa decisão. Nao há um iluminado determinando quais cargas são essenciais ou estratégicas para o bem do país. E funciona.

Que funciona, sabe-se há séculos. E há séculos fingimos não saber que funciona, e procuramos explicações artificiais, coletivistas, invocando a Ordem, o Planejamento e a estratégia iluminada de quem “pensa o país”, seja lá o que isto signifique. Funciona pela negociação de agentes livres, e não por outra coisa.

Não encontrei batatas no supermercado. Como bom (ou mau) acadêmico, tenho uma tese: é porque somos perdedores, e caminhoneiros leram Machado.

Há muitas formas de não saber: Imprecisão e aleatoriedade

É provavelmente inevitável que as palavras tenham, em seu sentido cotidiano, um significado mais vago, amplo do que o aceitável em um texto cientifico. E transplantá-las de seu habitat cientifico para o cotidiano é uma receita para o desastre. Algumas das interpretações mais equivocadas sobre Relatividade, Mecânica Quântica, o Teorema de Gödel e a Seleção Natural, apenas para citar alguns exemplos, podem ser reduzidas a problemas de semântica em torno de palavras como invariância, incerteza, prova, evolução e aleatoriedade.

Em particular, a palavra incerteza, em sua acepção cotidiana, representa uma combinação de diferentes ideias: questões técnicas sobre instrumentos de medida;  nossa incapacidade de repetir certos experimentos exatamente nas mesmas condições; e também questões fundamentais e difíceis  sobre a estrutura do universo, sobre como podemos (ou não) compreendê-la. É preciso ser muito mais preciso do que costumamos ser sobre incerteza.

Existe uma incerteza relativa à capacidade limitada de mensurar ou estimar variáveis. Na verdade, existe mais de uma, representada pelas palavras precisão e acurácia, que são quase sinônimos no cotidiano mas são conceitos sutilmente diferentes.

Para medir ou estimar o valor de uma grandeza física, um sistema de medida interage com o objeto de estudo. Este sistema pode ser um simples objeto ou um aparelho complexo, com centenas de partes constituintes. A interação entre aparelho e objeto de medida pode ser simplesmente colocá-los em proximidade física e observar o resultado a olho nu, ou um complexo procedimento experimental, que chega a um valor estimado da variável medida por meio de uma série de deduções e cálculos.

Seja simples ou complexo, este procedimento, se for repetido várias vezes sobre o mesmo objeto, não fornece rigorosamente o mesmo resultado, por mais cuidado que tenhamos. Ao medir um comprimento diversas vezes, eu provavelmente ajustarei a fita métrica em lugares ligeiramente diferentes. Ao medir um intervalo de tempo diversas vezes, eu provavelmente acionarei o cronômetro em instantes ligeiramente diferentes. O próprio aparelho está sob efeito de outros fenômenos além daquele que se deseja observar. Estes outros fenômenos, embora secundários, flutuam aleatoriamente entre uma medida e outra. Seja como for, há uma variação em medidas feitas supostamente nas mesmas condições. Chama-se imprecisão a esta particular forma de incerteza quanto a medidas.

Por outro lado, pode existir um erro sistemático na minha medida, que afasta o resultado de seu valor real. Eu posso medir um peso repetidamente com uma balança mal ajustada. Mesmo que o resultado seja parecido em diversas medidas (o que indicaria boa precisão), ele estaria longe do valor real. A esta segunda forma de incerteza chama-se inacurácia, embora ela seja frequentemente confundida com imprecisão cotidianamente, e até em textos técnicos menos cuidadosos.

O parágrafo anterior pode nos deixar com uma outra dúvida: se há imprecisão e inacurácia em qualquer medida, qual é o “valor correto” em relação ao qual medimos a acurácia? Ocorre que é possível convencionar os valores de unidades de medida (o quilograma, o segundo, etc.) e calibrar instrumentos a partir destes valores. É um assunto cotidianamente resolvido pelos especialistas em metrologia.
O uso mais famoso da palavra “incerteza” vai ser encontrado em Heiseberg e seu comentado (e pouco compreendido) Princípio. Em apresentações simplificadas ele costuma ser confundido com uma questão experimental de medidas, o que não é correto. Ou pelo menos não é completo. Na verdade, ele postula que a  imprecisão entre as medidas de certos pares de variáveis são relacionadas. Um experimento preciso de localização do elétron é necessariamente pouco preciso quanto à velocidade da partícula e vice-versa. Isto vem da própria estrutura matemática dos modelos físicos envolvidos, de forma que a historinha que ouvimos nos bancos escolares — sobre o elétron ser “muito pequeno” e por isso ser sacolejado pelo instrumento de medida — é pouco mais do que uma alegoria.

Seja como for, o fato de estas duas imprecisões serem dependentes, de forma que a diminuição de uma force um aumento da outra, constitui o princípio da incerteza. Tempo e energia, além de outros pares de variáveis, têm também esta propriedade. Se sei com precisão a duração de um fenômeno, haverá imprecisão sobre a energia que ele libera ou absorve. E assim por diante. Agora vamos sair do laboratório, e observar um “experimento” radicalmente diferente.

Os capitães cumprimentam-se ; cumprimentam o árbitro. Apontam para a moeda e falam algo. O árbitro lança a moeda para cima e mostra aos dois atletas o resultado.

Aquilo que lamentamos como inconveniente em experimentos de laboratório é essencial aqui. Confiamos que não seja possível antecipar o resultado do experimento. Chamar esta variação de “imprecisão” talvez faça pouco sentido, já que esta não seria uma limitação de nosso experimento, mas sim uma característica desejada. Faz mais sentido falar em “aleatoriedade”. Os experimentos tais como lançar uma moeda e verificar se temos cara ou coroa, lançar um dado e ver qual face fica voltada para cima, e outros, são aleatórios.

Eu já havia usado a palavra “aleatoriamente” acima, ao citar as razões pelas quais existe imprecisão em medidas. Havia dito que, além da variável que queremos medir, o instrumento de medidas é afetado por outros fatores aleatórios. Será então que este “aleatório” e aquela “imprecisão” seriam faces da mesma moeda, com o perdão do trocadilho?

Vejamos o caso da moeda. Não seria possível, com conhecimento preciso da massa da moeda, e de como ela está distribuída, e do movimento feito pelo árbitro para lançá-la, prever com certa precisão se o resultado seria cara ou coroa? Em tese, sim. Aliás, sabe-se que, com um pouco de treino, ou talvez muito treino, pessoas conseguem obter caras ou coroas com maior frequência. Acho até que a moeda é apresentada e manipulada por uma parte neutra na disputa justamente para evitar esta possibilidade.

Assim, será que existe “verdadeira” aleatoriedade? Será que, por puro pragmatismo, não usamos modelos probabilísticos para trabalharmos com objetos e fenômenos que, com maior estudo, talvez no futuro, revelem-se não-aleatórios, ou determinísticos, como se diz? Ou talvez precisemos de modelos probabilísticos porque os objetos são tantos que seria impraticável estudá-los de maneira determinística?

Esta é uma questão muito interessante e polêmica. Pode-se pensar na famosa declaração atribuída a Einstein, “Deus não joga dados”, como uma defesa da preponderância do determinismo nos modelos científicos. A Ciência poderia usar, por conveniência, modelos probabilísticos, mas a princípio, se estudarmos algo cuidadosamente e bastante, as relações entre variáveis físicas seriam conhecidas com a precisão possível dados nossos instrumentos de medida.

A interpretação mais comum para a Mecânica Quântica, uma teoria excepcionalmente bem sucedida em explicar resultados experimentais, favorece uma visão discordante: suas previsões são, apenas e fundamentalmente, probabilidades, e as incertezas quanto a medidas dos objetos modelados por ela são intrínsecas e, em certo nível, insuperáveis. Existiria, então, uma verdadeira aleatoriedade, e não apenas uma falta de conhecimento detalhado. Até onde sei — digamos, na limitada precisão de meu conhecimento — esta questão ainda desperta intenso debate. Não sobre o que se pode saber, mas sobre qual a forma exata do nosso inevitável desconhecimento.

Sobre Brasília e críticas erradas

O centro gerador dos problemas do país, habitado por privilegiados desalmados, afastados “do povo”. Um lugar sem vida, massacrado pela ânsia planejadora de urbanistas. Um deserto, com pouca gente caminhando amedrontada entre monumentos silenciosos.

Brasília, que hoje chega aos 58 anos,  não é nenhuma dessas coisas.

Antes da intervenção frenética, o lugar já havia. E era um lugar tão brasileiro quanto o Leblon ou os pampas. Talvez até mais, por sua centralidade geográfica. Lugar de poucos

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Resistência. Cerrado queimado nas cercanias do campus universitário.

aventureiros, em passagem. Uma natureza difícil. Não a exuberância verde da floresta tropical, mas também não o agreste. Uma alternância, em ciclos que contestam as estações astronômicas, entre a desolação queimada e a vitalidade saturada em cores. Entre o céu azul de desenho infantil e o por-de-sol laranja ou rosa da poeira seca.

 

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Ipê Rosa no Parque da Cidade.
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Pier, Asa Norte.

Feita a transferência da Capital para o interior, em prazo recorde, ou como previsto havia mais de um século, de acordo com as inclinações de cada um, juntam-se ao balaio de críticas a solução incomum de construção de uma capital onde nada havia, e o uso da arquitetura e urbanismo próprios da época. Na atuação transdisciplinar de urbanistas e psicólogos de botequim, o veredito está dado: é uma cidade sem esquinas

Pode-se falar muita coisa da arquitetura de Niemeyer, mas me parece injusto associar-lhe os adjetivos monumental ou opressora. Nosso palácio presidencial, por exemplo,  é um escritório modesto, leve, e submete-se quase amedrontado, como deve,  frente à reunião do povo a quem o inquilino deveria servir.

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Os vigias. O povo observa o Palácio do Planalto.

Se existe opressão da arquitetura de Brasília contra a escala do indivíduo, é a opressão do espaço vazio. De horizontes perturbadores, que desconhecem nossas causas. Esta não é a opção de um arquiteto ou de um urbanista. Queixem-se com o arquiteto do universo.

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Radical. Esqueitista diante do Museu da República.

 

A respeito dos erros de arquitetos e urbanistas mortais (e eles existem, os mortais e os erros), Brasília traz uma mensagem de esperança. Na visão centralizadora, a vida planificada seria a fonte de toda a felicidade. Se não é, nos ensinam,  é porque ainda deixou alguma coisa livre. Na prática, verifica-se justamente o contrário: felizmente, a vida livre e potencialmente feliz nasce e cresce plena, incontrolável,  de qualquer fresta que o planejador tenha deixado para trás.

 

Onde Lúcio Costa profetizava casas de chá (está lá no projeto, é só ler), a melhor opção

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Cruzamento. Bateristas próximo ao centro geométrico da cidade, domingo pela manhã.

do desavisado turista é seguir a pé até a rodoviária e apreciar um pastel com caldo de cana. Um correspondente americano referiu-se, durante a Copa, a uma “cidade brasileira sem samba”. Supondo que ele saiba mesmo a diferença entre samba e rumba, e que não estivesse apenas buscando uma frase de efeito, há que perdoá-lo. Seria difícil, entre um jogo e outro, que o estrangeiro descobrisse que o bom samba está no Setor Bancário Sul depois das 9 da noite. Que há décadas moradores da Asa Norte seguem um mestre taiwanense na prática do tai chi chuan nas primeiras horas do dia (e o Setor de Práticas Milenares nem foi previsto!). Que há corridas, aulas de patins e de bateria na eixo rodoviário fechado para carros aos domingos. Que a cidade, um platô cercado por serras e seus ventos

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Asas Delta sobre a Esplanada dos Ministérios

constantes,  é procurada por praticantes de Asa Delta de todo o mundo. Que o Carnaval local, que já testou e reprovou o modelo de Escolas e Desfiles, se revela rico em blocos espontâneos nos lugares mais improváveis.

 

As quadras comerciais locais, que deveriam prover com planificada eficiência tudo o que o habitante do Plano Piloto necessitaria para o seu dia-a-dia (uma padaria, uma barbearia, uma mercearia, etc.) são um outro curioso exemplo. Em alguns casos, essa variedade de comércio local de fato prosperou Mas em outros, o sucesso de um comércio atraiu concorrentes, e eis que temos as curiosas Rua das Farmácias (CLS 102/302) e Rua das Elétricas (CLS 109/110), esta última sede também do bar mais tradicional da cidade, porque essas classificações, planejadas ou espontâneas, não devem ser seguidas ao pé da letra. Minha comercial (CLN 205/206) especializou-se em “pet shops”. Seguir a previsão do Planejador exigiria de mim, entre outras coisas, a adoção de uma dieta inusitada.

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Bloco “Baby doll de nylon” próximo ao Cruzeiro que marca o início da construção da cidade.

 

E chegamos aos ditos desumanos números nos endereços. Aqui, a questão é de gosto, imagino. Dizer que você mora na rua Castro Alves não diz nada sobre onde você mora (não negue, amigo não-candango(a): tanto não diz que depois você tem que acrescentar o bairro, e explicar que ela é a segunda travessa da Visconde de Mauá vindo de tal direção, logo depois da padaria).  Endereços deveriam dizer onde pessoas moram. Números e letras são bons para isso. “205 Norte” diz que você mora na primeira fileira de quadras a leste do eixo (porque 2 é o primeiro par),  na 5a quadra do lado norte do outro eixo. É isso o que devia dizer.

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Eixo Rodoviário fechado para os carros no domingo.

E, quando chegamos à função central da cidade, a crítica fundamental. Esta eu passei a desprezar (ou a compreender melhor) depois de morar em outras capitais. A crítica a “esse povo de Brasília” é uma simples metonímia, com a injustiça e imprecisão que essas substituições poéticas trazem. Brasília não pode deixar de ser o símbolo do governo central. E o governo central, qualquer um, em qualquer época,  merece crítica. E Brasília vai junto.

 

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Congresso Nacional na Esplanada dos Ministérios. Oscar Niemeyer, arquiteto.

 

Após 58 anos de crítica, ela está aí. Estranha e acolhedora. Silenciosa e barulhenta (pergunte aos vizinhos da Rua dos Restaurantes. Esqueci de mencionar a Rua dos Restaurantes). Seca e alagada. Cinza e cheia de cores. Planejada e espontânea, monumental e delicada. Sede da corrupção, e possível sede da redenção libertadora (por que não?). Parabéns, Brasília!

Sobre especialidade e chatice

Os títulos até estão lá, mais ou menos. Os anos de experiência também. Mas eu não consigo me ver como especialista em nada. Na verdade, eu prefiro não me ver como especialista em nada, porque o especialista é um chato além da conta. Um chato multidisciplinar e transdisciplinar.

O especialista acadêmico é um chato. Nada o surpreende. Ele dá entrevista em uma sala com muitos livros ao fundo (quanto mais livros, mais especialista), indicando onde está a verdade sobre algum caso de súbito interesse leigo, e você não imagina como, porque a informação que temos é rasa a ponto de não permitir análise ou predição alguma (mas não para o verdadeiro especialista!). Ele também nos ensina que nós não temos uma opinião diferente da dele, apenas pensamos ter. O que ocorre é que há um obscuro manuscrito em grego e aramaico que não lemos ainda, e por isso “não temos clareza” sobre o assunto.

O especialista em música é um chato, no erudito, no jazz e no rock. Nada o surpreende. Qualquer menção às Quatro Estações, ou a um Armstrong mais popular, ou a Yesterday produz no especialista uma careta que mistura compreensão paternal e aversão profunda, uma careta que ele treina em frente ao espelho por horas, treinamento que ocupa a maior parte do seu dia. Boas mesmo (não ouse dizer “belas” ou “bonitas”) são obscuras obras do leste europeu, de grupos da Escandinávia ou da Ásia, desconhecidas do “grande público”. Decorar seus nomes ocupa o restante do dia do especialista.

O especialista em futebol é um chato. Nada o surpreende. Ele sabe exatamente porque o time está ganhando, até o momento em que o time perde, e a partir deste momento sabe exatamente porque ele está perdendo. Ou então, ele prevê que o time vai perder sempre. Se ganhar, estaremos ocupados demais comemorando. Se perder, leremos como o especialista bem nos avisou.

O especialista em bebidas é um chato. Nada o surpreende. Antes de podermos apreciar qualquer coisa, ele vem com uma conversa comprida sobre toques de folhas vermelhas pisadas por cavalos no outono. O único bom vinho é encorpado e tânico. A única boa cerveja é amarga. Se discordar, você tem muito o que aprender.

Eu sou chato o bastante. Eu fico corrigindo em voz alta o português de jornalistas e entrevistados quando vejo TV. Ontem dei uma bronca em um jornalista esportivo (que nem desconfia do ocorrido) porque ele, em tom de brincadeira, fez referência a um jogador em terceira pessoa como Vossa (sic) Majestade.

Então a parte da chatice também está lá. Mas eu me surpreendo todos os dias. Ccom perguntas de alunos de graduação, com vídeos de amadores no YouTube. Eu não sou especialista.

For the students, really

Something very arbitrary and not democratic happens when I enter an airplane. I, and the remaining passengers take seat in a part of the cabin, but another citizen, called Pilot, follows a different path. He takes seat in other place, physically removed from us. Worse: he then starts taken decisions that affect us all without consultation. In fact, we are not invited to build the best route for the trip collectively, celebrating the diversity in our perspectives, cultures, abilities and formative paths. The pilot does not even ask us if we should fly at an altitude of 10 or 11 thousand meters. There is little evidence that the pilot is more intelligent than I, or more learned. We can also be sure that, legally, I and my companion passengers have the same fundamental rights as he or she.
Enough irony for one post. Obviously, there is nothing strange in this situation. However, we often hear people sustain a thesis on equality that is not far from the ironic tale above, except they mean it. Specially in the university environment, proposals are often made that are supposedly inspired in the democratic ideals. In this line of thought , conservative distinctions between masters and apprentices, for example, should be abandoned for an environment without leaders or followers. Students should define curricula along with teachers. They should vote on new courses, share tasks in university administration, choose university presidents. Debates along those lines propose a simple question: are we for the students or not?
We are for the students, of course. I often say to my students I can imagine college education without rooms or other resources —-, and if we compare the expansion in enrolment  and in infrastructure these recent years, we just might have to put this idea to the test before we know. I can also imagine certain phases of learning without the physical presence of a teacher —- may my Union forgive me! It is really hard, however, to imagine learning without students.
It is also difficult not to recognize that undergraduate studies are, for the general public, the main activity of a university. The Brazilian Constitution states that teaching, research and outreach cannot be separated (article 270), but every single citizen sees the university, mainly, as an institution where the young and the not-so-young graduate. By the way, the statement that three things are actually one seems like a thesis in theology, not a Constitutional article, but this is not today’s subject. Anyway, the role of undergrads in a university can hardly be overstated, and asking if we are for or against them lacks any sense.
I and adult students are citizens with equal rights. However, just as it is unwise to exchange the pilot and the very clever passenger on seat 4A, there is a reason why the responsibility for the academic duties fall mainly to the Professor. It is not an accident, it does not happen because the Professor reached Illumination, nor because he or she became a citizen with extended rights, but because he walked successfully a path that brought him to be granted this responsibility. In most cases, the student has not even lived enough to arrive at the same position. This is not arbitrary, not a social construct, but a simple real-world fact. To ignore it is nothing but demagogy or a pseudo-revolutionary trick.
I listen to the students carefully. They help me observe whether teaching practices work or not. They are, by a large margin, the greater asset in the academia, and its reason of existence. In the limited domain of my expertise, however, if I really have as much to teach them as to learn from them, there are only two alternatives:  either I am teaching useless truisms, which students would learn by themselves with a critical spirit, books and internet access, or  I am acting with clear incompetence, disguised as generosity. Students, I and the rest of the country would be better off if I practiced something else.
For students, the path to university teaching is open. Before following it, I suggest they take a close look at our paychecks. Jokes aside, I will welcome them as my colleagues and will try to learn, given my limitations, the interesting details of their expertise. Until then, let us work and study, leaving demagogy to those who have no other resource.
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This is a translation, by the author, from a text published in Portuguese on this blog. In its turn, the original text is a reprint from an old blog I do not use anymore.
Photo: Students attending a talk at the University of Brasília. Taken by the author.

Verdadeiramente pelos estudantes

Acontece algo de muito arbitrário e pouco democrático quando entro em um avião. Eu e os demais passageiros tomamos assento em uma parte da cabine, mas um outro cidadão, denominado Piloto, segue um procedimento diferente. Ele senta-se em outro local, fisicamente isolado dos demais. Pior: ele passa a tomar uma série de decisões sem nos consultar.
De fato, não somos convidados a construir, coletivamente, celebrando a diversidade de nossas perspectivas, culturas, habilidades e percursos formativos, a melhor rota para a viagem. O piloto nem nos pergunta se devemos ou não voar a 10 ou a 11 mil metros. Há pouca evidencia de que o piloto seja mais inteligente do que eu, ou mais culto. Podemos ter também a certeza de que, do ponto de vista legal, eu e meus companheiros passageiros somos rigorosamente iguais a ele.
Bom, chega de ironia por hoje. É óbvio que não há nada de estranho aqui. Mas, não raro, vemos pessoas levantarem uma tese sobre igualdade que não está longe da minha brincadeira acima, exceto pelo fato de que falam a sério. Em particular, no ambiente universitário, veem-se com alguma frequência propostas que supostamente se inspiram no ideal democrático. Segundo esta linha, as distinções conservadoras entre mestres e aprendizes, por exemplo, deveriam dar lugar a um ambiente sem líderes ou liderados. Os estudantes devem construir com seus mestres os currículos. Devem opinar sobre novos cursos, dividir as tarefas da administração universitária, escolher seus dirigentes. Os debates em torno destas ideias orientam-se em torno de uma pergunta simples: somos ou não a favor dos estudantes?
Somos a favor, é claro. Eu costumo dizer aos meus estudantes que posso imaginar o ensino universitário sem salas ou recursos audiovisuais —- e, se compararmos expansão de vagas e de infra-estrutura nos anos recentes poderemos ter de avaliar essa possibilidade bem antes do que pensamos. Também  imagino etapas do ensino sem a presença real do professor — que meu sindicato não me ouça! O difícil mesmo é imaginar qualquer etapa do aprendizado sem estudantes.
Também é difícil não reconhecer a primazia do ensino de graduação na universidade. Ainda que nossa Constituição declare que ensino, pesquisa e extensão sejam indissociáveis (artigo 207),  não há uma só pessoa que deixe de pensar universidade, de maneira primordial, como a instituição onde se pratica o ensino de graduação. Aliás, esta afirmação de que três coisas são na verdade uma só mais parece uma tese teológica do que um artigo da Constituição, mas hoje o assunto não é esse. Enfim, não é exagero dizer que tudo na universidade funciona, em primeira análise, para o(a) estudante de graduação, e perguntar se estamos ou não a seu lado não chega a fazer sentido.
Eu e os estudantes adultos somos cidadãos plenos, sem distinção em direitos. Ocorre que, assim como não é prudente substituir o piloto pelo passageiro (inteligentíssimo!) da cadeira 4A, não é por acaso que a responsabilidade fundamental da atividade-fim da academia recai sobre o professor. Não por acaso, não porque o professor alcançou a iluminação, ou tornou-se pessoa com maiores direitos, mas porque ele percorreu, com êxito, um caminho que o levou a assumir essa responsabilidade. Na maior parte dos casos, o estudante sequer viveu o bastante para poder fazê-lo. Isto não é arbitrário, não é “um construto”, mas um simples fato do mundo real. Ignorá-lo não passa de demagogia ou enganação pseudo-revolucionária.
Ouço com atenção os estudantes. Eles me ajudam a observar o quanto as práticas de ensino funcionam e não funcionam. São, por larga margem, o maior patrimônio do ambiente acadêmio, e sua razão de existir. Mas, no limitado domínio da minha especialidade, no dia em que tiver tanto a ensinar quanto a aprender com eles, só sobrarão duas alternativas: ou estarei ensinando uma obviedade inútil, a que o(a) estudante chegaria por si só, munido de senso crítico, livros e acesso à internet, ou estarei agindo com evidente incompetência, mal disfarçada de generosidade. Estudantes, eu, e o resto do país estaríamos melhor se eu me dedicasse a outra coisa.
Para os estudantes, o caminho que os leva docência universitária está aberto. Antes de trilhá-lo, sugiro que estudem nossos contracheques com atenção. Brincadeiras à parte, eu os receberei alegremente como colegas, e procurarei aprender, observadas minhas limitações, os detalhes interessantes de sua especialidade. Até lá, vamos trabalhar, estudar, deixando a demagogia para quem não tem outro recurso.
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Esta é uma re-publicação do texto do autor em um outro blog, desativado.
Foto: Estudantes em Palestra na Universidade de Brasília. Tirada pelo autor.

For freedom of necessary, pleasant speech

“Mankind are greater gainers by suffering each other to live as seems good to themselves, than by compelling each to live as seems good to the rest.
Though this doctrine is anything but new, and, to some persons, may have the air of a truism, there is no doctrine which stands more directly opposed to the general tendency of existing opinion and practice. “
This quote from “On Liberty” by John Stuart Mill is over 150 years old, and depicts precisely how hard and necessary it is to write about this theme. Is there anything more obvious than defending freedom? Who would attack freedom? Why insisting on what we already know?
Because, though nobody attacks freedom at daylight, there are threats. Excuses, strategies, fallacies. We are for freedom but… Freedom of speech, in particular, brings plenty of ideas following this “but”. For example, we have the curious concepts of Freedom of Necessary Speech, and Freedom of Pleasant Speech.
“Was this really NECESSARY?”. We hear that sentence often,  generally about a comedian who supposedly crossed some line. We do not need much context information to reply, with no chance of error: it was not. The comedian would not have a breakdown or worse if he refrained from making this joke. That is why we call this freedom, not necessity. A citizen other than you expressed himself as you would not consider necessary, good or right, with motivations unknown to you, and this expression is protected.  Actually, it is the very fact of him or her seeking expression in a way you or others would disapprove that brings this act to the realm of individual right and justifies its protection.
There are also defenders of Pleasant Speech. They propose to draw a line considering what the other sees as offensive. But again, the ONLY expression that needs protection is that one which possibly provokes or perturbs someone, the expression someone wishes suppressed.  The hypothetical expression everyones agrees with would need protection against whom? Freedom, which seemed almost obvious above, and is now proving difficult, is a fundamental individual right. Not being offended is not.
So there are no limits? On the contrary, the limits are so many we would run out of space here. Let us remind just a few examples not to be stuck in generalities.
Freedom of speech is no excuse for planning, inciting or making apology of a crime. A real crime, with real victims, not a simple hyperbolic outburst, not an allegory, not a fiction on a possible criminal act, otherwise fans of detective stories would be in trouble.
Freedom of speech does not imply protection against criticism, neither a guarantee of means to publicising speech, nor a public to listen. Criticising, not attending, not financing are examples of individual freedom, not an attack to an artist’s freedom. If it were, how would we counter-attack? Free citizens, for instance,  would have to attend a minimum numbers of shows they dislike?
In some cases, the line separating this right from other not less important rights is absolutely clear. When it is not, the justice courts are open. But the general rule remains: people do not have to express themselves as you would like them to. This, and not something else,  is what we call freedom.
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This text is a translation, by the author, of a Portuguese post on this blog. 
Photo credit: Taken by the author, at  Parque das Aves (Park of the Birds), Foz do Iguaçu, Brazil.